Por André Romero
Vivemos em uma época que promete bem-estar, equilíbrio e felicidade mas que, ao mesmo tempo, parece cada vez mais intolerante ao sofrimento humano. Tristeza vira depressão. Ansiedade vira transtorno. Oscilações emocionais passam a ser vistas como sinais de que algo está errado. O que antes fazia parte da experiência de existir, hoje corro risco de ser rapidamente enquadrado como patologia. Essa tendência revela mais sobre a cultura do que sobre o indivíduo.
Quando me refiro a isso, é no sentido de que as pessoas já olham como se o sofrimento fosse problema de cunho orgânico, hormonal, cerebral, como se fôssemos robôs. Não quer dizer que estes pontos não interfiram, porém, a cultura atual nos ensina que, é preferível o sofrimento ser algo ‘corrigido’ e ‘ajustado’, do que ser olhado profundamente. Pois isso fará com que cada um, olhe para si, o que hoje em dia, infelizmente é mais visto como estranheza do que um movimento que pode abrir possibilidades de curas.
As demandas que hoje chegam até o consultório, mudaram bastante, percebo uma dificuldade maior do que antes, de sustentar e lidar com os incômodos da vida, de modo geral. Do ponto de vista psicanalítico, o sujeito é constituído por falta, conflito e ambivalência. Amar e odiar ao mesmo tempo, querer e recusar, aproximar-se e afastar-se essas contradições não são falhas do sistema emocional, cerebral ou “bioquímico” e etc, mas seu funcionamento BÁSICO.
No entanto, a cultura contemporânea opera sob outra lógica: a da eliminação do desconforto (o que é impossível). Há uma pressão, muitas vezes silenciosa, para que sejamos estáveis, produtivos e emocionalmente resolvidos. Nesse cenário, qualquer experiência que fuja desse ideal passa a ser percebida como inadequada.
Em minha atual experiência como psicológico clínico, esta nova dinâmica cultural que se fortaleceu muito nos últimos 5 anos, algo social, político e educacional, virou demanda clínica individual, ou seja, adentrou fortemente na cabeça de cada pessoa como sofrimento pessoal. Na prática clínica, já é comum encontrar sujeitos que chegam já “traduzidos” em diagnósticos, mas ainda distantes de si mesmos. Sabem o que têm, mas não sabem o que sentem. Ou, mais precisamente, não sabem o que fazer com o que sentem.
Isso não significa negar a existência dos transtornos mentais ou desvalorizar o sofrimento psíquico. Há, sim, quadros que demandam cuidado, acompanhamento estruturado e, em alguns casos, intervenção medicamentosa. A questão está em outro ponto: nem todo sofrimento precisa ser imediatamente suprimido. Parte dele precisa ser escutado, simbolizado, atravessado. Talvez um dos maiores desafios contemporâneos seja justamente este: reaprender a sustentar o que sentimos sem, necessariamente, transformar tudo em doença. Um convite à complexidade
Em vez de buscar eliminar rapidamente o desconforto, talvez possamos nos perguntar: o que essa emoção diz sobre mim? De onde ela vem? O que ela coloca em conflito? A psicanálise não propõe uma vida sem sofrimento, mas uma relação mais possível com ele.
Em um mundo que tende a simplificar a experiência emocional, sustentar a complexidade pode ser, em si, um grande ato de saúde mental.


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