Por André Romero
Ser adolescente nunca foi simples. Trata-se de uma fase marcada por transformações intensas: mudanças no corpo, nas emoções, nas relações e na forma de perceber o mundo.
No entanto, crescer na atualidade parece trazer desafios ainda mais complexos do que em outras gerações. Hoje, o adolescente não enfrenta apenas as tarefas naturais dessa etapa da vida, como a construção da identidade, o desejo de pertencimento e o processo de se separar simbolicamente da infância. Ele também precisa lidar com uma realidade marcada por exposição constante, comparações sociais e uma pressão silenciosa para corresponder a expectativas muitas vezes irreais.
As redes sociais ocupam um lugar central nesse cenário. Para muitos jovens, a vida passou a ser vivida também diante de uma vitrine permanente, onde aparência, popularidade e aprovação se tornam indicadores de valor pessoal. A lógica do “curtir” e do “seguir” pode transformar a experiência subjetiva em algo constantemente avaliado pelo olhar do outro e isso chega diariamente na clínica, como queixa.
Do ponto de vista da saúde mental, isso traz consequências importantes. Não é raro observar adolescentes lidando com ansiedade, insegurança, sentimentos de inadequação e medo de não serem suficientes. Em alguns casos, o sofrimento aparece de forma silenciosa, escondido por trás de comportamentos aparentemente comuns ou de uma presença ativa nas redes.
A psicanálise nos lembra que a adolescência é justamente o momento em que o sujeito tenta responder a uma pergunta fundamental: quem sou eu? Essa busca, que já é complexa por natureza, torna-se ainda mais difícil em uma sociedade que oferece modelos prontos de sucesso, beleza e felicidade.
Talvez um dos maiores desafios da atualidade seja permitir que o adolescente tenha espaço para construir sua própria narrativa, sem ser constantemente pressionado a se encaixar em padrões que não respeitam sua singularidade. Falar sobre saúde mental na adolescência, portanto, não é apenas discutir sintomas ou diagnósticos. É também refletir sobre o ambiente social em que esses jovens estão crescendo e sobre o tipo de escuta que estamos dispostos a oferecer.
Porque, no meio de tantas vozes dizendo como eles deveriam ser, muitos adolescentes ainda estão tentando descobrir quem realmente são.


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